quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Um sósia de Pessoa

Fernando Tita Ferreira nasceu em Lisboa em 1959 e veio a falecer na mesma cidade em Agosto de 1986. Morreu a meio de uma tarde amena, "na mais profunda paz". Não estava doente, não sofria as consequências de nenhuma tragédia, não tinha preocupações de maior. Quem o rodeava nesse dia diz que fechou os olhos e morreu, naturalmente, como se fosse o mais lógico de acontecer aos 27 anos.

Teve uma vida atribulada, de profissão em profissão, tinha uma obsessão pela obra de Fernando Pessoa e pela cidade de Lisboa. Tentou vestir a pele do poeta, era o que se podia chamar um sósia, mas nunca passou disso. A sua obra é curta e nunca foi revelada a ninguém. Apenas uma série de poemas amarfanhados numa pasta preta que deixou de herança aos pais. Fica um desses textos:


Memórias da Cidade Branca
por Fernando Tita Ferreira, 1982



Há algo nesta cidade que me faz senti-la
e querer,
(no mais profundo da minha alma)
desejar fugindo da matéria que há em mim,
com sede e fome e desespero ao mesmo tempo,

ser Pessoa ressuscitado.


Ressuscito
(se ainda ninguém o fez ou sabe).

Ressuscita-se assim a cidade solarenga,
subindo o sol nas colinas,
a saudade da cidade branca…

Nasci no dia em que Pessoa morreu.
Não no mesmo ano. Nem no mesmo universo.
Mas nasci,
estou aqui,
e ele já não está.


Há algo nesta cidade que me faz senti-la.
Algo que é seu,
sua a essência branca e luminosa que me pulsa nas veias…

e nos dedos de Paredes também pulsava…

Tamanha glória faz-me chorar.
Tamanho orgulho faz com que queira morrer com a face presa à calçada!
Deixando passar por cima do meu corpo outra gente da Lisboa que acabou,
mas que era ela que eu amava.

Nasci na Lisboa da altura errada.
Não sou desta data.
Sou de Lisboa.


Suicido-me sem sofrer
só para sentir a cidade da saudade de sempre,
a cidade cinzenta-alva do sol da salvação.

E enquanto não o faço sonho com Pessoa,
que tomo café com o poeta,
numa esplanada…

os olhos marejados de lágrimas e o coração fora de mim
em cima da mesa…


Esta era a minha Lisboa
e só esta era que ainda ninguém de mim roubou.

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