terça-feira, 16 de março de 2010

Episódios insólidos da vida de Vladimir Kükas (2)

Vladimir Kükas morreu com dois caninos de lince enterrados no dedo médio do pé direito. Todos acharam que não era motivo para o homem ter falecido e o único diagnóstico que a família se dignou a aceitar foi o de vista cansada.

Insólito foi o seguinte: Vladimir Kükas na semana anterior tinha ido cortar o cabelo ao mesmo sítio onde fôra 5 anos antes. No entanto, nessa altura era ele quem desbastava a cabeleira alheia e não ao contrário. Agora, o porquê do regresso, agora na qualidade de cliente, é que nunca ninguém conseguiu perceber. Nem tão pouco o facto de se ter apresentado na cadeira do barbeiro vestido de rena da Suécia. Não do Alasca, não façamos confusões. Da Suécia.

O barbeiro, esse, fez o seu trabalho sem dizer uma palavra acerca da indumentária de Vladimir. Mas talvez tivesse feito bem em avisá-lo do lince que trazia agarrado à tira de velcro que tinha nas costas. Felino esse que, como é sabido, haveria de o assassinar.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Morreu Novembro

Aquando da morte de Novembro, Dezembro decidiu revelar o ensaio crítico que elaborou acerca daquela pessoa, avaliação efectuada ainda a meio de Outubro.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Novembro é um bruxo albino.

Raramente sai à rua
com medo do frio e da chuva,
em vez de temer o sol.

É dos chás que ele engole.

Raras e vis mezinhas, que trocam sangue e juízo.

Está sempre a prepará-las,
é por elas que está vivo.
Embora haja quem discorde.

Enverga um manto preto
que contrasta com a pele
e condiz com a alma.
Brilhante combinação.

E assim é Novembro:
olhos escarlates,
dedos brancos,
dias mancos."

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Morreu Outubro

Aquando da morte de Outubro, Novembro decidiu revelar o ensaio crítico que elaborou acerca daquela pessoa, avaliação efectuada ainda a meio de Setembro.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Outubro é um pai que regressa.

Fugido de amores furtuitos,
volta para os braços da mulher.

E de mais quem quiser.

Tem pirralhos que chamam por ele,
gritam por atenção.
O pai abraça-os a todos e suplica por perdão.

De dentro do seu fato,
impecavelmente engomado,
ainda bate um coração.

Conta histórias à noitinha,
embala os filhos na lareira.
Dorme a noite inteira.

E assim é Outubro,
pobre homem envergonhado,
enfim perdoado."

Morreu Setembro

Aquando da morte de Setembro, Outubro decidiu revelar o ensaio crítico que elaborou acerca daquela pessoa, avaliação efectuada ainda a meio de Agosto.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Setembro é um caso mal resolvido.

Não é carne nem peixe,
não é homem nem mulher.
É um ser híbrido, muito mole.

Nunca tem opinião,
nem aprendeu a dizer não.
Dizem que vive a vida assim.

Torna-se aborrecido só de saber que existe.
Só dá pena a incerteza e saber que vive triste,
numa capa de pêlo sem forma nem feitio.

Dizem que não se decidiu.

E assim é Setembro,
na sua eterna questão,
sem qualquer opinião."

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Os estranhos também amam

Aos 23 anos, Fernando Tita Ferreira conheceu aquele que viria a ser o amor da sua vida. Foi ao comprar cigarrilhas, na Casa Havaneza, em pleno Chiado. Nunca a tinha visto ao balcão até aquele dia e, surpreendentemente, nunca mais a voltou a ver. Nem quando regressou no dia seguinte com a desculpa de comprar fósforos. Ela já lá não estava.

Talvez fosse amiga ou parente de um dos funcionários, estando apenas a fazer umas horas como favor, Fernando nunca soube ao certo. Mas era uma fonte de frescura que refrescava só pelo olhar. Cabelos dourados presos num carrapito, sardas na face, lábios reluzentes, tudo o que fazia lembrar a Primavera num único corpo de mulher. Corpo esse que aguçava a curiosidade, por entre as formas da camisa de linho branco, e fazia crepitar a gula do sósia pessoano.

Nesse mesmo dia, e sem ter trocado mais do que meia dúzia de palavras com ela, Fernando sabia que estava apaixonado. Que iria amar aquela mulher até ao último dos seus dias.

Materializou esse sentimento num pequeno poema que viria a escrever por volta das duas da manhã, enquanto combatia a insónia recorrente.



Do teu estranho amor por Fernando Tita Ferreira, 1982



Estranho
o Mundo.

Não só a palavra mas tudo.
A sua forma e conteúdo,
é tudo estranho para mim.

Abro os olhos e é estranho.
As cores, as formas, os sons,
os corpos das pessoas, os tons
que usam, que mostram,
que tanto mistério tem
e a forma como movem.

É tudo estranho para mim.

Mas há um raio de luz.
Não sei o que quer dizer.
Mas se a certeza não vier
para mim não é coisa estranha,
é a vida que quer saber.

E é só por isso...
mesmo só por isso,
que escolho viver.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

suicídio

está decidido! vou imolar.me dentro de um balde de praia trancado. é seguramente a única maneira de me perseguir com alma e conquistar eternidade. está decidido!

domingo, 6 de setembro de 2009

Morreu Agosto

Aquando da morte de Agosto, Setembro decidiu revelar o ensaio crítico que elaborou acerca daquela pessoa, avaliação efectuada ainda a meio de Julho.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Agosto é um turista refilão.

Sua abundantemente
porque gosta de confusão.

Tem os sovacos molhados,
camisa colada
e cheira pior do que mal.

Mal educado e violento,
fica vermelho ao esbracejar.
Não conhece o seu lugar.
Nem sequer sabe estar.

Conduz nervosamente
e sempre directo ao Sul.
Depois leva tudo à frente.
Come sofregamente,
na véspera de ir nadar.

E assim é Agosto,
na sua fúria endiabrada,
de chegar sem saber estar."

Morreu Julho

Aquando da morte de Julho, Agosto decidiu revelar o ensaio crítico que elaborou acerca daquela pessoa, avaliação efectuada ainda a meio de Junho.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Julho é a irmã mais velha.
Uma senhora,
uma mulher,
mais para mais encantadora.

Rejubila num vestido
muito leve e florido.
De um bonito colorido.

É bom vê-la rodar assim.

Tem uma voz calma,
calmante.

Chamamento quente e sonante,
parece chamar por mim.
Mas é de todos os que a ouvem
num bater de asas suave.

E assim é Julho,
com flores secas à cabeça,
melodias na cabeça
que divertem ao passar."

terça-feira, 11 de agosto de 2009

As últimas palavras de Fernando Tita Ferreira

Este é o último poema que Fernando Tita Ferreira terá escrito.
Não se lhe conhecem as últimas palavras, como tal tomam-se estas como as suas derradeiras. Tudo o que terá ficado por dizer, relata quem estava presente, esvaiu-se com um suspiro.



Sem Título por Fernando Tita Ferreira, 1959



Sinto laivos de vida violenta em mim.
Veias que vermelham e pulsam em tons de negro.

Pulsa a vista também,
ou aquilo que a vista tem.
Continuo sem conseguir dormir.

Várias vezes os fechei e as pestanas sem cerrar.
Pisco uma, duas vezes.

Nunca mais.

Nunca.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Finado

Só voltei a mim quando a primeira terra, mais húmida, me apanhou a cara e o sabor. Acordei com o ritmo do ferro na areia a raspar e a agarrar o que podia para me atirar para cima. A tempo de perceber que algo me cobria.

E quando voltei a mim estava de uma sonolência tal que nada fiz para me levantar.

A perfeita consciência de saber que ali deveria ficar Silencioso Imóvel num receio de me apagar Mas numa ânsia Nunca antes vista de Enfim descansar.

Ora ali fiquei Ainda a tempo de perceber a luz escassa de uma lamparina Velha de enterros da idade das viúvas

Que me mostrou as pernas uma em cima da outra, os braços, curvados Cravados no peito e uma camisa amarelada de suores antigos.

As vozes lá em cima Uns motores e eu num Ora deixa-me estar mudo Que me justificava qualquer dúvida E o ali estar.

Qualquer pânico que se me aparecesse por só ver o mundo num rectângulo cada vez menor.

É apaziguante saber que não precisamos de fazer nada.

Enfim os músculos descansam e falam connosco. Finalmente nos olhamos nos olhos e acenamos.

Foi isto.

Foi isto de para lá e para cá. De pessoas maiores e menores Dias iguais.

Isto de se esperar e correr atrás. Fugir e deixar-se apanhar. Julgar-se e dar-se a julgar.

Isto de nunca parar de rodar.

(a terra cada vez mais seca esconde-se-me nos bolsos Mistura-nos e faz de mim mais mundo que alguma vez fui)

Ora foi isto de assim Por aqui passar.

Levo a mão aos cabelos que correm para a cara Acordados e asfixiando

Sinto-me ainda homem e capaz de assim me mostrar.

Levo a mão até onde o peso me deixa e descubro ao que nunca vou voltar.

Foi isto.

Mil imagens no cheiro a chão. Outras mil no pouco ar que mantém o coração.

Aquela e aqueloutros

Todos no mesmo sítio

Expostos Prontos para o acenar.


E eu

Valente

Tapado de pés Estradas e ventos.

Sorridente por ser isto e muito mais. Por não ter de ser mais nada. E por não poder ser mais nada. E muito por saber o que foi tudo.

Deixo-me aqui estar.

terça-feira, 21 de julho de 2009

o estrangulador das escadinhas da fonte

a primeira parte da minha vida
a vida da minha primeira parte
a parte da minha primeira vida
a minha parte da vida primeira
foi e será sempre a morte: matar e morrer

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O Diálogo inédito de Sócrates


Após a sua detenção, já com idade bastante avançada, o mafioso Don Serôdio sofreu um período deveras traumático, derivado de uma violenta queda que sofreu na sua cela. Por ter batido com a cabeça em cheio no beliche, passou uma semana entre a vida e a morte, sofrendo inúmeros delírios. Quando recuperou, contou uma série de histórias incongruentes, directamente relacionadas com o seu estado crescente de senilidade e com a própria lesão craniana. Não viria a viver muito mais tempo, morreu cinco semanas depois em circunstâncias pouco claras, vítima de asfixia. 

No entanto, antes de perecer, relatou uma das suas experiências pós-morte: um diálogo que terá presenciado in loco, entre José Sócrates e Deus, durante a festa de aniversário deste último. Segue a transcrição exacta que o psicanalista do presídio efectuou dos relatos do decadente Don Serôdio.


"Seguido por São Pedro, Jesus Cristo está numa autêntica pilha de nervos em plena festa de aniversário do Pai. Dá ordens aos empregados, prova os canapés, ajeita as flores, perde-se em mesuras e rococós perante tão ilustres convidados. São Pedro finge preocupar-se com as mesmas questões, mas não faz mais do que fingir. Está preocupado com as chuvas de Abril. Este ano quer esmerar-se para provar que ainda tem a estaleca de outros tempos. Enquanto manda servir o queijo de cabra a Madre Teresa de Calcutá e Mahatma Gandhi, que privam em amena cavaqueira, Jesus caminha em direcção ao Pai que dormita no seu trono de nuvem. Todo o céu está engalanado perante tão gloriosa ocasião: o aniversário do Todo Poderoso.

- Pai, Pai, acorde. – ordena J.C., embaraçado. – Não tem vergonha de estar aqui a dormir?

- O que é que queres dizer com isso?! Sendo eu omnipresente pode-se dizer que quando 
adormeço, adormeço sempre em todo o lado. – Deus penteia as longas barbas brancas com a mão. – Hoje não estou com “saco” para fazer sala. Aviso já.

- Eu não quero saber disso para nada. O Pai quis convidados à altura e eles aqui estão. Não seja mal educado. – Cristo faz finca-pé perante a teimosia do velho.

- Já a formiga tem catarro! Está bonito está… Não fosse eu Deus e já estava enfiado num lar. Com pouco mais de dois mil anos e já me responde, o fedelho.

- Haja paciência. – suspira Cristo, sorrindo aos convidados. – Ao menos tenha uma conversa com um deles, Pai. Parece mal estar para aqui a ressonar e a babar-se na nuvem. Hão-de dizer que está senil. E com razão…

- Senil, eu?! Está bonito está… Não fosse eu Deus e já estava enfiado num lar. Com pouco mais de dois mil anos…

- Já sei, já sei! Cale-se, porra. – Cristo quase perde a paciência. – Vá, tenha uma conversa com alguém, por favor. Socialize.

- Uma conversa? – Deus puxa pela cabeça. – Olha, quem era danado para as conversas era aquele filósofo ateniense, o Sócrates. Era um grande conversador, não haja dúvida. Vai lá chamá-lo.

- Mas o Pai tem a certeza que o Sócrates que convidou é o tal grego? – Cristo analisa o primeiro ministro português de longe. – É que estou aqui a topá-lo… Fatinho escuro, ar de pintas, conversa fiada… Não será um aldrabão qualquer?

- Mas qual aldrabão?! Então eu não sei quem é que convido?! Vai lá chamá-lo, já disse! - Deus levanta um pouco mais a sua voz de trovão, o que provoca um ligeiro “sururu” entre as visitas.

Seguido por São Pedro, Jesus Cristo dirige-se então a José Sócrates e aponta para o trono de nuvem com uma expressão desolada. Sócrates fica radiante quando se apercebe da importância do momento e aproxima-se de Deus com um grande sorriso na cara.

- Eu só quero dizer, não só a Deus como a todos os ilustres convidados, que é para mim uma verdadeira honra, e um privilégio também, estar aqui entre os presentes. - Sócrates faz uma vénia exageradamente demorada.

- Está bom, está bom. - sussura o Todo Poderoso, incomodado. - Vá, erga-se e venha aqui sentar-se ao pé de mim para dois dedos de conversa.

- Ah, e não quero deixar de referir, não só a Deus como a todas as figuras históricas aqui no Céu, que não me importo nada que tenham feito cair um piano em cima da minha cabeça durante o meu jogging matinal. Tudo para poder estar aqui convosco.

- Como assim? - pergunta Deus, a coçar a nuca.

- Ora, como é sabido, não só por vocês como por todos os desempregados portugueses, eu estava vivo e bem vivo. - Sócrates mantém o sorriso amarelo.

- Vivo?! Eu já ando a fazer confusão com as datas. É da idade. – o Criador faz sinal a um dos anjos para que lhe sirva um copo de espumante. – Então como vão essas filosofias, ó Sócrates?

- Vão bem, muito obrigado. Tive sempre vinte à cadeira na faculdade. – Sócrates beberica a bebida com ar guloso. – Nos bons velhos tempos da Independente, sabe?

- Pois, em Atenas sempre foi tudo muito independente lá com a democracia e tal… só acho que eram demasiado imaginativos com os deuses. Havia deuses para tudo. Não se contentavam só com um?

- Note que, em Atenas como em Lisboa, respeitamos Deus e a democracia. – Sócrates baixa um pouco um tom de voz. – Se bem que em Portugal até tendemos um bocadinho mais para os seus lados. Gosto de manter a democracia um tudo nada menos omnipresente, se é que me entende.

- Concordo contigo, ó Sócrates. Aqui no Céu também há uma hierarquia bem definida como tu sabes. Tudo muito bonito, sim senhor… Asinhas e auréolas para todos, não há dúvida… Mas quem manda é cá o “je”. – sussurra Deus, fazendo um brinde com José.

- Ora, nem mais!

- Agora diz-me cá. Portugal? Então a Grécia não te chegava? – pergunta o Todo Poderoso, enquanto limpa as barbas depois do gole.

- Chegou-me bem na final do Euro. A mim e aos portugueses, coitados. Andavam todos contentes com as bandeirinhas nas janelas… Nem reparavam naquilo que eu andava a fazer. Ainda aproveitei para efectuar muitas trafulhices na altura que ninguém dava por nada. – Sócrates esboça um sorriso malicioso.

- Percebo o que queres dizer. Eu também gosto de efectuar trafulhices de tempos a tempos. E para isso não há melhor sítio que Portugal, não é? – Deus solta uma gargalhada ruidosa.

- Pois é. Olhe como o caso Freeport! – concorda o primeiro ministro.

- Esse não conheço. Mas também é natural, hoje em dia vocês são cada vez mais e eu não dou conta de tudo.

- No entanto, deixe-me dizer-lhe, com toda a certeza aliás, que continua a ostentar admirável forma física. – Sócrates apalpa a perna direita de Deus. – Também costuma fazer jogging?

- Mau! Guarde uma distância de segurança, se faz favor. Vocês da Grécia antiga são muito dados às mariquices e estas barbas não são a fingir! – grita o Criador com cara de poucos amigos.

- Grécia antiga? Tem piada. – Sócrates massaja o queixo, pensativo. – Já que gosta assim tanto de História, e já agora também tive vinte nas cadeiras da faculdade, ouviu falar no Magalhães?

- Não ouvi falar em nada. Estou sempre muito ocupado. – responde Deus, aborrecido.

- Ah, então precisa imediatamente de mandar vir uns quantos de Portugal para implementar aqui no Céu. Faz maravilhas com a educação dos mais novos.

- Óptimo, mande-me entregar então aqui um que Jesus não faz mais nada senão curar leprosos e lavar os pés aos apóstolos. Parece obsessão, pá. Assim sempre se distrai com alguma coisa. – Deus aperta a mão de Sócrates, como que a despaxá-lo.

- Assim será, de acordo com a Sua vontade. – José aproveita o cumprimento para entregar a Deus um crachá do PS, um queijinho da Covilhã e um panfleto intitulado “Como deixar de fumar em aviões fretados pelo Governo Português”.

- Vá, volte lá à vida e à epistemologia que já vi que de ética e virtude não tem muito. – declara o Todo Poderoso antes de fazer Sócrates desaparecer numa explosão de luz.

Os restantes convidados aplaudem o espectáculo de pirotecnia. Uns por isso e outros porque não queriam voltar a aturar a conversa do antigo aluno prodígio da Independente. A cerimónia prossegue. Deus boceja e volta a adormecer profundamente enfastiado."

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Tragédia



A mão.

O ponto.

A natureza.

O ângulo.

O mar.

A lingua.

E o peso.

Todos mortos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Morreu Junho

Há dois dias morreu Junho.
Julho avaliou-o a meio de Maio e, na altura, elaborou um ensaio crítico acerca da sua pessoa.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Junho é o irmão mais novo.
Salta dentro e salta fora,
mergulha em ondas claras.

Depois ri-se, satisfeito,
e faz uma dança às claras.

Enquanto espera pela noite.

Todos gostam dele,
quem não gostaria?

É romântico,
muito lânguido,
atira beijos salgados.
Provoca sonhos apaixonados até ao ano que vem.

E assim é Junho,
na sua forma tentadora,
uma brisa apizaguadora que chega ao entardecer."

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Noite em branco


De todas as vezes que sonhei acordado,
e sempre que acordei a sonhar, 
avistei infinitudes finitas,
que bailavam como sombras estranhas, 
e agitavam-se como labaredas, 
só que sem luz,
só escuro, 
sem pressa de me fazer levantar, 
sem urgência de me obrigar a viver, 
silenciosas e cínicas, 
dançavam até de dia, 
sem vida nem morte nem nada.

Farrapos pretos de uma noite branca.

Noite em branco.

Que o é porque grita sussurros.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Morreu Maio

Ontem morreu Maio.
Junho avaliou-o a meio de Abril e, na altura, elaborou um ensaio crítico acerca da sua pessoa. 
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:

"Maio é uma velha com mil filhos.
E sempre que olhamos para ela, 
está à espera de mil mais.

No adro da velha igreja, 
dá pãozinho aos pardais.

Veste preto, com ar doce, fala dos dias que aí vêm.
Dá esperança a quem passa, dá alento a quem quer.
E sente quente lá dentro quem fala com esta mulher.

Muito velha,
com mil filhos.
Sem nenhum querer perder.

E assim é Maio, 
nobre mãe, 
que fala do calor que aí vem."

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A ratazana branca

Vitória Sanfim chegou a sussurrar o seu último pesadelo antes de morrer.
Tinha acabado de acordar e os seus olhos estavam mais negros e encovados do que nunca. Já pouca era a vida que lhe restava no corpo.

"Sonhei com uma ratazana branca.
Muito feia e desgrenhada.
Reles, pulguenta e manca.

Passou por mim a correr esquiva
e enfiou-se na minha cama.
Para sujar o leito de lama.

Tinha urgência em morrer. E eu de adormecer.
Tentei bater-lhe com a vassoura e ela foi-se porta fora.

Fiquei só 
de hora a hora.

Também assim a minh´alma: reles, pulguenta e manca.
Tinha urgência em morrer.

Sonhei com uma ratazana branca."

quarta-feira, 13 de maio de 2009

de petuchki a moscovo

em petuchki, começa em segundos a transmissão de um cancro tímido e sibilante.
erofeev, o mosquito debutante pelas ruas da cidade, é o agente encarregue de tão imprevista actividade.
ganhou o estatuto pela sua natureza e não por casual favor.
de bico pontiagudo e corpo rijo mas delgado, com faro para a carne humana e mestria de toque, iniciará a transmissão do surto presa a presa sem delongas.
e é assistir, a partir de agora em directo ou depois deste momento em diferido [conforme a opção e oportunidade], ao declínio da sociedade.
primeiro os velhos, depois os mais fracos. de seguida os mais novos e as mulheres. e finalmente os mais fortes.
de tão ordinários, tornam.se presas fáceis. de corpo a esqueleto. de esqueleto a carcaça. numa espiral de decadência redundante.
um a um. uns a seguir aos outros. todos. são consumidos como cornijas de papel em fogo, por agonia, em paralisia e sem capacidade de debate.
o cálculo dá certo. o resultado satisfaz a expectativa. zero.
e a partir de petuchki, erofeev inicia o périplo para moscovo. em mistério, é acompanhado somente pela sua sombra, num rasto de luz sem bandeira.
pelo caminho, a civilização vai desaparecendo em ressaca.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Episódios insólitos da vida de Vladimir Kükas (1)


Vladimir Kükas morreu em 1987 enquanto urinava na WC do seu local de trabalho. 
Foi atacado por um lince ibérico sem ter tido tempo de apertar a braguilha. 

Nunca mais ninguém avistou o lince ibérico responsável pelo homicídio. Assim como nunca ninguém conseguiu explicar o que estava ele ali a fazer.

Apenas mais um episódio insólito na vida de Vladimir Kükas, como muitos que teve ao longo da sua curta existência.

Nasceu em 66, no Barreiro. Era suposto ter-se chamado José Lopes, mas devido a um engano no registo, causado por uma mulher de longas barbas que apareceu montada numa girafa de meio metro com cabeça de lebre, outro episódio insólito, acabou por adoptar o nome de um reformado soviético que gostava de filmes de animação.

Vladimir Kükas não foi feliz em vida. Nem em morte. 

Pode dizer-se que foi, todo ele, insólito.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Morreu Abril

Ontem morreu Abril.
Maio avaliou-o a meio de Março e, na altura, elaborou um ensaio crítico acerca da sua pessoa.
Crítico factual. Nunca destrutivo.

Prestamos-lhe assim homenagem com a transcrição dessas palavras:


"Abril é um puto mentiroso.
Traquinas e sebento, de rosto lambuzado.
Blusão de penas aberto, a deixar entrar o frio que o torna constipado.
Mas nem assim menos travesso.

Gosta de enviar bilhetinhos,
com manias de conquistador.

Mas só conquista a dor nos outros com o seu jeito atrapalhado.

Com um ar abananado de pelintra descuidado.

E assim é Abril,
cheio de enganos e de chuvas,
que enganam os trovões."